Poemas de Visão incurável (Ed. Lab, 2018)

 

 

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LENDA

 

juntos no fim dos tempos
povoado por guepardos e mediterrâneos
dançaremos febris sobre as sucatas da história

amor marítimo entregue a novas terras
caravela ensolarada contrabandeando
ervas inseguras
e a visão incurável de selva e morte

 

NENHUM JARDIM

 

nenhum jardim
cadência turva
poças de espera

nenhum jardim
extermínio rente
seiva expatriada

nenhum jardim
marchas financeiras
casos isolados

nenhum jardim
florescências sagradas
aqui pisoteadas

nenhum jardim
quinhentos anos
não bastaram

 

PRESSÁGIO

 

onde as ruínas virarem atlas
enchentes antidomésticas
brumas insuportavelmente belas

cicatrizes silvestres
do instantâneo ao eterno

 

NEVE

 

em seus cabelos embranquecidos
gaviões sublimados se arrastam
possuídos nos lagos e leitos da seda
oferenda de urros e lastros
ópio disperso das unhas aos lábios

 

VISÃO 2018

 

ó cidade estratosfera bélica
de cruéis vértebras nascentes
de clementes coturnos fascistas
de legiões mumificadas em torrentes
de guilhotinas no seio da mata
de fatais condores insustentáveis
de mansas hemorragias antevistas

não posso com o sol em seus granitos
nem suportar fora de curso
seus remotos antros doutrinando o desespero
estarreço esmaeço eclodo arrebatado
aquietado ao lado de anjos abrasados

 

ALUMBRAMENTO

 

em determinado momento
você incendeia a primavera
funde profundas faunas

cachoeiras esquecidas
pupilas noturnas em edifícios
deságuam o espírito dos lírios

alquimia silenciosa
o pântano da pele
orvalho sobre orvalho

 

FONTE OCULTA

 

vislumbro a fonte oculta
avisto a animalidade
da possessão palpitante

ninfas e pavões
se estendem reverdecidos
neste incessante corte
inscrito no espaço

fervor em riste
para que o encanto dure

 

EXÍLIO

 

acidentalmente só
desabrigado do eco
sitiado por algas apressadas

respira apenas o ensaio
de beijar o navio em chamas

 

PRECE

 

deus me proteja do som
e da esgrima carnívora do dia
escalavrada fremente bárbara
que avança atônita e fere
a tudo e a todos
neste mar soterrado
por vidas em aquários

 

PINTURAS DE GUERRA

 

I

o ermo caçador
à véspera da batalha
verte iluminação

 

II

 

olhar tigrino crucial
jejum arisco
entre listras delicadas

 

III

 

estado de graça
joia extrema
suspensa pela jugular

 

IV

 

urgência mortal
implacável vereda
temporal adentro

 

GALOPANDO NO MAR ESCURO

 

galopando no mar escuro
antecipo anestésicos extremos
absintos cegos
orgasmos amargos

reencontro a hidra
e velejo pela hipnose
da maresia vampira

meu antebraço exausto
efêmero e desregrado
lateja entre suas presas

 

NOVO TROVÃO

 

I

 

pontualmente em meu peito
um novo trovão alucinado
eletrocuta a noite
finca o cerne das cores
prega meu sangue com outro
feito de miragens
espasmos
luz

 

II

 

juntos somos nômades
almas assassinas
vagando as avenidas
à espreita do brilho