Poemas de Visão incurável (Ed. Lab, 2018)

 

 

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LENDA

 

juntos no fim dos tempos
povoado por guepardos e mediterrâneos
dançaremos febris sobre as sucatas da história

amor marítimo entregue a novas terras
caravela ensolarada contrabandeando
ervas inseguras
e a visão incurável de selva e morte

 

 

NEVE

 

em seus cabelos embranquecidos
gaviões sublimados se arrastam
possuídos nos lagos e leitos da seda
oferenda de urros e lastros
ópio disperso das unhas aos lábios

 

 

PINTURAS DE GUERRA

 

I

o ermo caçador
à véspera da batalha
verte iluminação

 

II

olhar tigrino crucial
jejum arisco
entre listras delicadas

 

III

estado de graça
joia extrema
suspensa pela jugular

 

IV

urgência mortal
implacável vereda
temporal adentro

 

 

PELE RISCO

 

ofereço saúvas
emergências
pálpebras pelo poente

meço o lince
trovejante
num ciclone sem lei

 

 

NOVO TROVÃO

 

I

pontualmente em meu peito
um novo trovão alucinado
eletrocuta a noite
finca o cerne das cores
prega meu sangue com outro
feito de miragens
espasmos
luz

 

II

juntos somos nômades
almas assassinas
vagando as avenidas
à espreita do brilho

 

 

FONTE OCULTA

 

vislumbro a fonte oculta
avisto a animalidade
da possessão palpitante

ninfas e pavões
se estendem reverdecidos
neste incessante corte
inscrito no espaço

fervor em riste
para que o encanto dure

 

 

PRECE

 

deus me proteja do som
e da esgrima carnívora do dia
escalavrada fremente bárbara
que avança atônita e fere
a tudo e a todos
neste mar soterrado
por vidas em aquários

 

 

NENHUM JARDIM

 

nenhum jardim
cadência turva
poças de espera

nenhum jardim
extermínio rente
seiva expatriada

nenhum jardim
marchas financeiras
casos isolados

nenhum jardim
florescências sagradas
aqui pisoteadas

nenhum jardim
quinhentos anos
não bastaram

 

 

EXÍLIO

 

acidentalmente só desabrigado do eco
sitiado por algas apressadas

respira apenas o ensaio
de beijar o navio em chamas

 

 

PRESSÁGIO

 

onde as ruínas virarem atlas
enchentes antidomésticas
brumas insuportavelmente belas

cicatrizes silvestres
do instantâneo ao eterno

 

 

FORÇA INTERIOR

 

já vi as flores se decomporem
em mares silenciosos
envolvendo os pés que sonhei seguir
na potência de um presságio

por vezes
o dom das bruxas
que recolhem os dias com magia
e elevam o amor
até o animal onipresente chamado vida